A Casa do Capitao - Rui Pires

A Casa do Capitão


A "Casa do Capitão" foi a casa onde Ferreira de Castro, em 1934, se hospedou para escrever o romance "Terra Fria".

Situa-se na aldeia de Padornelos, em Montalegre, junto à Serra do Larouco.

Padornelos recebeu foral por D. Sancho I e confirmado, a 5 de Outubro de 1266, por D. Afonso III. É uma aldeia muito antiga.

Estas imagens mostram alguns momentos da vida dos últimos habitantes desta casa,
os dois mais idosos entretanto falecidos.

Ferreira de Castro  subiu a Barroso em 1934 e instalou-se na "Casa do Capitão", em Padornelos, para escrever o romance "Terra Fria". O enredo que ficcionou entre Ermelinda (natural de Cambezes) e o Santiago, que regressara da Venezuela, com dinheiro e fama, desenvolve-se em torno dos milagres da Misarela. Ela (empregada da mãe de Santiago), casara com Leonardo, peliqueiro, que fazia contrabando entre Espanha e Portugal. Eram jovens, mas não conseguiam ter filhos. Ermelinda acabou por deixar-se seduzir pelo "Americano" que a engravidou. Para evitar a vingança do marido que foi o último a saber, convenceu-o ela a ir à Misarela para que alcançasse o filho que tanto queria e que Leonardo não lhe dava. Todo o romance decorre em torno dessas lendas e superstições, o que se comprova com os muitos "gervázios" e "senhorinhas" que há pela região, nomes obrigatórios para quem nascesse debaixo desse signo.


"Sobre a montada, subindo, devagar, a trilha pedregosa, Leonardo esmoía íntimas irritações. Não podia ser! Os galegos estragavam tudo, quer pagando quantos direitos os guardas fiscais lhes exigiam, quer andando, na calada da noite, a fazer contrabando de peles. Ainda se aparecessem muitas de texugo e de tourão, em que os ganhos pingavam mais, sempre se poderia ir vivendo. Mas não. O gardunho tornara-se bicho raro e também não se matava todos os dias um texugo. E que se matasse! Já se sabia que os galegos pagavam mais – e pele esticada e seca ficava guardadinha para eles. Se nem as de raposa escapavam! Levavam tudo! Desdenhadas, só as de cabrito e de vitela, tão baratuchas que um homem fartava-se de carregar com elas para poder ganhar uns tristes vinténs..."

"Vestiam os seus trinta e quatro anos feitos e vividos sempre ali, entre a agressividade dos elementos, um casaco e coletes velhos, enodoados, a camisa sem gravata. O rosto mostrava faces crestadas, lábios grossos, e os olhos pestanudos quase se ocultavam sob o boné de pala, que descia até meia-testa. Nos ombros, luzia manta cromática, das que se fabricavam em Barroso, e de um lado e outro do bucéfalo dançavam, ao sabor da marcha, as peles compradas nesse dia. Tinham as extremidades endurecidas e do centro, ainda viscoso, exalavam cheiro nauseante."

"As pequenas ilhas, sobretudo, fascinam-me, porque permitem observar melhor o homem entregue a si próprio fechado sobre si mesmo e, simultaneamente, disperso no infinito, entre mar e céu -- inconsciente até do labor psíquico por ele realizado perante o eterno limite."

"Nem eu sei quando nasceu no meu espírito este amor pelos povos minúsculos, pelas repúblicas em miniatura, por todos os que vivem isolados no planeta."

Ferreira de Castro

(Escritor português, grande precursor do Neo-Realismo em Portugal, nasceu em Oliveira de Azeméis em 1898 e faleceu em 1974)

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