Mogador - Rui Pires

Mogador

Essaouira, Marrocos


Mogador - Essaouira


Sob comando de D. Diogo de Azambuja aqui construimos um forte em 1506, o Castelo Real de Mogador,. Para o efeito foi escolhida uma pequena ilha, atualmente denominada "La Petite Île" :


Mogador - Essaouira

Ainda podem ser apreciadas as antigas peças de artilharia portuguesas, assim como a primitiva igreja e as fortificações na pequena ilha de Mogador (imagem acima)


A história de Mogador é uma consequência da sua geografia. Foi frequentada desde a antiguidade por fenícios e romanos, sendo, por vezes, visitado no século XIV por navios de Veneza, Génova, Pisa, Marselha, Catalunha e Aragão. Estes contactos entre a Europa e o Magrebe que tinham em vista o comércio, embora mais frequentes no Norte de Marrocos, alcançaram de forma crescente a região do Suz.

Terá existido aqui uma colónia de pescadores que se dedicava à recolha do múrice para obter uma substância de cor entre o vermelho e o azul, o corante púrpura, na ilha que se encontrava defronte da pequena enseada, onde existia a povoação. Era um ancoradouro seguro, na antiguidade e no período medieval, que acolhia os navios que ali comerciavam. O desenvolvimento de Mogador terá sido fruto do impulso provocado pela procura do referido molusco que tingia os tecidos, conjugada com o escoamento dos produtos agrícolas e dos têxteis transportados pelas caravanas que ali afluíam. A geografia do local teve um papel determinante na fixação da população. A ilha fronteira ao povoado, denominada no período romano Purpuriae Insula, protegia o ancoradouro da fúria do mar. As condições eram tão favoráveis que os navios podiam mesmo invernar no local.


Mogador - Essaouira

A origem da designação daquele sítio terá derivado, de acordo com El Bekri, geógrafo do século XI, do nome do santo local Sidi Mogdoul. O vocábulo “Migdol” significava torre ou fortificação em fenício e poderá ter apelidado o santo. El Bekri, na Descrição da África Setentrional, afirma que o porto de pesca tinha, a seguir à islamização, esse religioso como padroeiro. É desse hierónimo e através das formas “Mogful” e “Mogodor”, que o nome da povoação surge, já como “Mongoder”, nos portulanos do século XIV, daí evoluindo para o topónimo atual.

David Lopes, no seu artigo “Les Portugais au Maroc”, escrito, em 1939, para a Revue d’Histoire Moderne, demonstrou como D. Manuel I se interessou desde cedo por um projeto de expansão imperial em Marrocos. Assim o atestam os melhoramentos que fez nas praças herdadas e o empenho que colocou nas conquistadas. É um período em que as guarnições das fortalezas são reforçadas, bem providas de munições e de víveres e em que os soldos de oficiais e soldados são melhorados. Diz o autor que as Cortes de Lisboa, em 1503, aprovaram um crédito de 50.000 cruzados para as despesas de guerra no Magrebe. O próprio rei planeou, mais que uma vez, ir combater no Norte de África. Segundo Damião de Góis, ainda anteriormente à ocupação portuguesa de Mogador, vinham daquela zona vários ataques a posições lusas. No início do século XVI, os barcos portugueses frequentavam já aquela costa para se abastecerem de trigo, que transportavam sobretudo para as suas praças norte‐africanas.

Em julho de 1506 aqui chegaram os Portugueses. No mês seguinte, D. Manuel I ordenou a Diogo de Azambuja que aí construísse o Castelo Real. Para essa edificação deveria contribuir, com o seu apoio, o almoxarifado da próxima Ilha da Madeira. Embora as fontes sejam quase inexistentes, sabemos que foram também importantes outros apoios, conforme nos dá conta um recibo de 7 de outubro de 1507. Nesse documento, João Mendes Correia, feitor de pescarias de atum no Algarve, recebeu a quitação das somas que despendeu em 1506 com o biscoito, a carne, a madeira, a cal, o tijolo e outras coisas que comprou para a construção do Castelo Real que Diogo de Azambuja fez pela ordem do rei em Mogador, de acordo com as cartas de quitação de D. Manuel.

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A obra fez‐se com grande resistência dos indígenas. Duarte Pacheco Pereira, em Esmeraldo de Situ Orbis, ao fazer uma descrição geográfica e até hidrográfica da zona de Mogador, deu também relevo aos ataques que as obras sofreram:

“houve tanta contradição e perseguição da multidão dos Bárbaros e Alarves que se ajuntaram a pelejar com os que este edefício foram fazer, quanto sua possessança abrangeu. E, em fim, este castelo se fez a seu pesar, e a glória do vencimento na mão de Vossa Sacra Magestade ficou”.

Com a construção do castelo essa atividade terá cessado no momento, porque a edificação foi à viva força. As dificuldades de defesa levaram o governador do Funchal a enviar trezentos e cinquenta homens para socorrer Diogo de Azambuja. De Portugal, Simão Gonçalves acudiu várias vezes, com navios e gente a suas expensas, ao Castelo Real, entre outras praças, em situações de cercos.

De 1506 a 1507 sabemos ter governado o Castelo Real Diogo de Azambuja, que recebeu aquela capitania pelos trabalhos e riscos com que levou a efeito aquela construção. Seguiram‐se‐lhe Francisco de Miranda, interinamente (1507‐1509) e, após um pequeno período em que ali dirigiu D. Pedro de Azevedo, capitão de Safim, por então chegarem a estar reunidas as duas capitanias, um dito Nicolau de Sousa, o último de que se tem notícia.

Antes do final de 1510 os indígenas apoderaram‐se do Castelo Real, em circunstâncias que ainda não se conhecem. O castelo ficou abandonado, sendo reparado já em 1628 por ordem do sultão Mulei Abde Almálique. A construção do porto em 1765 fez desaparecer os últimos vestígios.

A localização do Castelo Real permanece “lendária” para a população de Essaouira, bem como para os visitantes. Isto acontece porque já não é visível qualquer vestígio do castelo. Os seus restos são, muitas vezes, referidos em relação à ruína de um bastião do século XVIII que o mar vai destruindo nas dunas da praia.


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