Alcácer de Quibir - Rui Pires

Batalha de Alcácer de Quibir

(Douar Soaken, Ksar el Kbir, Morocco)

Douar Soaken, situa-se a norte de Alcácer de Quibir. A fotografia tirada do local exacto onde a formação Portuguesa foi violentamente atacada pela artilharia moura. Os mouros de Mulei Moluco apareceram de repente, entre 60.000 homens e 200 peças de artilharia em cima das colinas (ao fundo na foto), com uma vantagem táctica evidente. As terças Portuguesas foram tomadas pelo pânico e foram logo desbaratadas no início da batalha. Um dos primeiros a tombar foi Thomas Stukley, comandante dos mercenários Italianos ao serviço do Rei de Portugal. O homem lfoi atingido e despedaçado por uma bala de canhão logo no início da batalha, tendo os Italianos entrado em confusão total, tal como as outras terças de infantaria Portuguesa. Depois 10.000 mouros a cavalo trataram do resto. Agora, a calma reina e as ovelhas pastam por cima dos restos mortais de muitos milhares dos nossos ...

Representação da Batalha, com as tropas de Moulay Moluco em formação de meia lua e as tropas Portuguesas formadas em terças.


A 4 de Agosto de 1578, nas imediações da cidade marroquina de Alcácer-Quibir, deu-se a que também ficou conhecida como Batalha dos Três Reis por nela terem falecido três soberanos. Para compreender o enquadramento político-militar da batalha é necessário recuar no reinado de D. Sebastião ao ano de 1562, conhecido pelo cerco à praça de Mazagão e pela organização das Cortes que entregaram a regência, na menoridade do rei, ao cardeal-infante D. Henrique.

Nos capítulos destas Cortes um dos pedidos feitos, na sequência do abandono decretado por D. João III, foi o de um reinvestimento no Norte de África. Este enquadrava-se numa conjuntura de dificuldades financeiras do Reino em que se discutiam novamente as prioridades do Império: grande parte da nobreza que se opusera, em tempos de D. João III, ao abandono das praças norte-africanas, aproveitou o ambiente gerado pelo cerco, para renovar um pedido que demonstrava como aquela decisão régia não solidificara. Em torno do jovem rei foi-se aglomerando um crescente número de nobres defensores de uma nova aposta no Norte de África.

Boa parte desta nobreza, que esperava com ansiedade o momento da assumpção de poder por D. Sebastião, via com bons olhos o interesse do jovem monarca pelos grandes feitos de guerra contra os mouros. Para esta nobreza, que sempre encarou o combate norte-africano como o prolongamento natural da Reconquista e como a área por excelência onde devia exercer a sua função guerreira, o regresso aos areais norte-africanos era ainda uma forma de reafirmar o prestígio luso na Europa. Ao assumir a governação D. Sebastião iniciou diversas reformas.

De entre as que, desde cedo, procurou colocar em prática encontrava-se a relativa às ordenanças militares. Esta esbarrou na oposição de boa parte da nobreza que percepcionava os argumentos régios de modernização do exército para acompanhar as inovações europeias como uma perda dos seus privilégios senhoriais, designadamente do comando da hoste senhorial. A oposição a esta reforma, que se iniciou em 1569, levou no final do reinado a episódios difíceis de gerir com consequências em Alcácer-Quibir. Mas, se paradoxalmente, por um lado, o rei enfrentou a oposição da nobreza nos seus intentos de reforma militar, por outro, continuou a partilhar com esta e cada vez mais o projecto marroquino. Logo em 1571, a propósito da Batalha de Lepanto, D. Sebastião evidenciou publicamente o interesse no combate à mourama. Porém, a mudança da prioridade política para o Norte de África por parte do rei só principiou a ficar mais nítida a partir de 1573, ano em que o rei iniciou uma jornada ao Alentejo e ao Algarve. Logo em 1574, sem disso dar conhecimento senão após a sua partida, D. Sebastião rumou ao Norte de África.

No entanto, a saída do rei, que se fez acompanhar das figuras que dominaram a corte nos anos seguintes, saldou-se por uma expedição de reconhecimento da região. Impedido de prosseguir pela conjuntura política (a avó D. Catarina chegara a escrever-lhe ameaçando que caso não regressasse ela própria o iria buscar e o cardeal-infante D. Henrique manifestara apreensão em aceitar a regência que lhe fora imposta) e pela falta de condições gerais, o rei foi forçado a regressar. Data, assim, de 1574, o momento da viragem norte-africana na mente e política régia. Não há dúvida que desde então o monarca tencionava regressar ao Norte de África com um grande exército, que não tivera em 1574, a fim de cobrir-se pessoalmente de glória e, assim, afirmar a Coroa Portuguesa no cenário europeu. O pretexto para esse regresso deu-se em 1576, quando Muley Mahamet, deposto do trono de Marrocos, com o apoio otomano, pelo seu tio, Muley Maluco, se dirigiu aos monarcas ibéricos em busca de apoio. Se para a estratégia de Filipe II a ingerência nos assuntos marroquinos se afigurava desaconselhável, para D. Sebastião, que se reforçara rodeando-se de novas figuras na corte, a oportunidade era única. Afastada, minorada e até debilitada a influência que durante anos a avó D. Catarina e o tio D. Henrique tinham protagonizado, D. Sebastião tinha oportunidade para ensaiar a sua própria política.

Nesse sentido divulgou a intenção de ajudar Muley Mahamet a recuperar o seu trono e solicitou a Filipe II um encontro para combinar os preparativos da expedição que em sua ajuda organizaria.

El Rei D. Sebastião de Portugal

No encontro de Guadalupe, em finais de 1576, D. Sebastião procurou convencer o monarca castelhano a conceder-lhe auxílio militar. Argumentando com o perigo de ingerência turca no sultanato marroquino e na própria Península Ibérica, sobretudo tendo em conta as recentes perdas de La Goleta e Tunes frente aos Otomanos, o rei procurou convencer Filipe II dos perigos de uma pirataria moura recrudescente no Mediterrâneo e até no Atlântico. Porém, Filipe II, que desde cedo se empenhara em demover D. Sebastião da jornada, vendo-se impossibilitado de colocar o duque de Alba no comando da expedição, impôs condições inexequíveis para o seu apoio.

A expedição teria de se realizar até ao Verão de 1577 e D. Sebastião deveria nomear um general. Regressado a Lisboa nos inícios de 1577, o rei deu início imediato aos preparativos, arregimentando homens segundo o sistema das ordenanças e enfrentando a oposição de figuras como o duque de Bragança ou o conde de Tentúgal, procurando simultaneamente reunir meios financeiros para a contratação de homens no estrangeiro. Um dos meios mais polémicos foi a concessão de um perdão-geral aos cristãos-novos a troco de elevada soma o qual, para ser alcançado, implicou a renúncia de D. Henrique ao cargo de inquisidor-mor do Reino. Para os recrutamentos no estrangeiro, D. Sebastião enviou Nuno Álvares Pereira à Flandres e Alemanha, em processo muito conturbado que incluiu negociações com Guilherme de Orange.

O rei chegou ainda a propor casamento com uma filha do duque da Toscânia na mira de recrutamento de homens em Itália, esquecendo a sua promessa de Gaudalupe de casar com a filha de Filipe II. Apesar de D. Sebastião procurar apressar tudo para que os preparativos militares estivessem prontos a tempo, nomeando general D. Luís de Ataíde e posteriormente quatro coronéis para dirigir o recrutamento pelas comarcas do Reino, criando um ambiente de tensão e de receio em que todos os que na corte o tentavam chamar à razão eram afastados, e de ordenar recrutamentos forçados, não pôde evitar que a expedição fosse adiada até à Primavera de 1578. Tal sucedeu devido à natural morosidade com que decorriam os preparativos e ainda a bloqueios e contratempos de diversa espécie. Só em finais de 1577, o rei assumiu publicamente que tencionava liderar a expedição e, apesar da esperança de alguns de que não fosse o monarca a liderar o exército, sugerindo-lhe diferentes nomes, D. Sebastião sempre afirmou que a jornada não se faria sem o seu comando. Já durante o ano de 1578, os sucessivos falecimentos da rainha D. Catarina e da Infanta D. Maria, conjugados com a polémica em torno da governação durante a ausência do rei na jornada africana e com os últimos preparativos que tardavam contribuíram para que só em finais de Junho de 1578 D. Sebastião partisse com um exército composto na sua maioria por homens mal treinados e militarmente pouco apetrechado. Quando zarpou de Lisboa, a armada portuguesa seria composta por cerca de 800 embarcações e contaria com um valor ligeiramente superior a 20 000 homens, entre os quais 5000 estrangeiros, 12 000 dos terços portugueses, 1400 do esquadrão dos aventureiros e ainda 500 homens do esquadrão castelhano.

Após o desembarque em Tânger, D. Sebastião encontrou-se com Muley Mahamet e recusou as propostas de Muley Maluco que lhe prometia entregar alguns portos em troca da paz. No entanto, o rei viera com o plano de cercar o porto de Larache. Uma parte do exército seria embarcado em Arzila na armada para atacar Larache enquanto D. Sebastião lideraria o restante na conquista de Alcácer-Quibir, a sudeste de Larache, de forma a depois retomar o caminho de Larache e a cercar por terra e mar. Após variados contratempos, o rei acabou por não tomar Alcácer-Quibir, sendo nas redondezas da cidade que enfrentou o exército de Muley Mahamet. O sultão de Marrocos proclamara a guerra santa e reunira um exército numericamente superior ao de D. Sebastião. Optando por esconder a sua artilharia e jogando com um conhecimento do terreno, Muley Mahamet envolveu o exército luso com o seu exército em forma de meia-lua. Do lado português, D. Sebastião dispusera o grosso do seu exército de infantaria em quadrado. Quando se iniciou a marcha de batalha, o exército português foi surpreendido pela artilharia moura e pela proximidade do exército oponente. Uma carga inicial da cavalaria islâmica na retaguarda causou grande confusão do lado português.

A custo o ataque foi sustido pela cavalaria lusa e o exército luso investiu contra a parte visível da infantaria de Muley Mahamet, pondo-a em debandada. Todavia, aquilo que pareceu o início da vitória cristã com a retirada desordenada do inimigo, rapidamente se converteu numa derrota quando o grosso da infantaria moura, mais treinada e que se mantivera oculta, contra-atacou ao mesmo tempo que, na ala esquerda, também a arcabuzaria moura contra-atacava. O inesperado contra-ataque islâmico combinado com a explosão de reservas de pólvora do lado português, semeou o pânico e a desordem no exército luso que iniciou a debandada, sendo presa fácil para os mouros.



Porto de Larache e rio Lukos, onde a armada de D. Sebastião fundeou, nos dias que antecederam a Batalha de Alcácer de Quibir.

Em Larache podemos encontrar dois fortes, o da fotografia acima é o forte de Laqbibat, ou de Hisn Lakbibat, ou de Hisn El-Fath ou Castelo das Cúpulas ou Castelo de San António (como era chamado pelos Espanhóis) ou ... Castelo Português.

Foi construído a mando de Almansor logo após a Batalha de Alcácer de Quibir. Almansor sucedeu ao sultão Mulei Malique I, que, como já vos disse, morreu durante a dita batalha devido a ter sido envenenado com “peçonha” uns dias antes e ter ficado muito debilitado, não resistindo ao esforço da guerra. E porque é que lhe chamam a esta fortaleza Castelo Português ? Porque foi desenhado por um arquitecto Italiano ao seviço de D. Sebastião, Filipe Terzi (1), feito prisioneiro de guerra pelos mouros e por mão de obra Portuguesa : os Portugueses aprisionados no fim da batalha de Alcácer de Quibir. Foi considerado pelo próprio Almansor que os prisioneiros Portugueses da Batalha de Alcácer de Quibir tiveram uma importância fundamental na modernização de Marrocos. Larache sempre foi um local infestado de corsários e piratas mouros, nomeadamente os irmãos Barbarrosa. Já ao tempo de D. João II, cerca de 80 anos antes da triste batalha, uma nossa esquadra entra por este porto dentro e para acabar de vez com a pirataria moura. Sobe o rio Mokhazen e constrói a famosa fortaleza da Graciosa, a cerca de uns 20 Km do local da batalha, numa pequena ilha na confluência dos rios Mokhazen e Loukos, de forma a cortar a ligação fluvial entre Larache e Alcácer de Quibir e assim impedir o acesso dos piratas ao mar.

A construção da fortaleza da Graciosa é hoje considerada um grande erro estratégico pela escolha do local onde foi erigida, na verdade nem chegámos a finalizar a sua construção. Os nossos avós foram cercados e derrotados por um pequeno exército mouro e tiveram de a entregar a Sidi Al Arous, alcaide Alcácer Quibir, fazendo D. João II um acordo de paz muito interessante com o sultão Mulay As-Sheikh e que ditou uma amizade longa. Aliás, Mulay As-Sheikh já era grande admirador dos feitos nosso D. Afonso V, pai de D. João II, o que pesou neste acordo de paz. A paz com os mouros era fácil, muitos acordos de paz existiram entre os nossos reis e os sultões mouros já desde o tempo do nosso D. Afonso Henriques.

(1) Filipe Terzio, nascido Filippo Terzi, era italiano, acompanhou Dom Sebastião na sua malograda jornada africana e serviu-o como um dos seus melhores arquitectos. Resgatado em 1580 pelo Cardeal-Rei, Terzio regressou ao trabalho no Reino. Sucedeu a António Rodrigues como Mestre de Obras de El-Rei de Filipe I, e deixou obra abundante de que se destacam o Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa, o grande torreão do desaparecido Paço da Ribeira, também em Lisboa, e o Forte de São Filipe, em Setúbal.



* fotografias captadas em Douar Soaken, no local exacto da Batalha de Alcácer de Quibir.

Mas, imaginemos que D. Sebastião ganhava a Batalha de Alcácer de Quibir. Subjugaria o Império Marroquino ? Eu acho que nem um ano o manteria, quanto muito. Só quem não conhecia, como o próprio, a própria realidade dos povos Bérberes do sec. XVI. Se já não era fácil manter as praças costeiras por falta de homens, seria impossível manter sequer duas ou três cidades do interior por mais de dois ou três meses. As praças costeiras, em caso de cerco, podiam-se manter abastecendo-as por via marítima, com víveres, reforços, água.

E à nossa frota de guerra ninguém fazia frente. Tomando uma cidade fortificada do interior, como Fez, Meknes ou outra das cidades Imperiais, exigiria um poderio militar brutal (que não havia, até para Alcacer de Quibir foi preciso arregimentar mercenários e contratar peões à força, mal treinados e desmotivados) para depois nos fechar-mos lá dentro e em seguida os Bérberes cortarem todos os abastecimentos. Ainda não havia força aérea para se resolver o problema do abastecimento. Acho que teria sido uma tragédia ainda maior que a da malfadada Batalha dos Três Reis. A Berbérie era indomável.

Ali, o aliado de hoje era amanhã o pior inimigo. Mulei Moluco, tempos antes da batalha ofereceu a D. Sebastião o contrário : em troca de não avançarmos para a guerra, ficarmos com as praças fortes costeiras que já detinha-mos onde nos poderíamos dedicar ao livre comércio e até à evangelização, e garantiu a troco de avultada quantidade de ouro a retirada das tropas do Império Otomano (nossas inimigas figadais) que anteriormente o tinham ajudado a tomar Fez. D. Sebastião fez ouvidos de mercador, tanto a ele como aos melhores estrategas militares do Reino de Portugal, como a seu tio Filipe II e ao seu Estado Maior, onde se distinguia o Duque de Alba, que mais tarde nos tomou Lisboa.

Vamos esquecer este triste episódio da nossa história, que na minha perspetiva poderia ter sido bem pior para o Reino caso ganhássemos a Batalha de Alcácer de Quibir, teria sido uma espécie de Vietname Português e talvez o fim do império, tornando-se Marrocos um grande cemitério Luso nos anos seguintes. Obviamente, é a minha opinião.


Alcácer de Quibir,  no séc. XIX

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